A arquitetura desempenha um papel vital na atração de turistas. Os significados dos edifícios, monumentos, são recebidos e sentidos pelas pessoas ao seu redor de várias maneiras, mas em geral os monumentos emblemáticos, construídos para demonstrar o poder do homem frente às novas descobertas tecnológicas, os quais são objeto de consulta e cenário de inúmeros viajantes e aos quais também iremos nos deter neste pequeno apanhado, são identificados como expressão de força e poder. Quer-se provar e mostrar algo através deles.
Enquanto que na Arquitetura moderna se procurava um processo de reprodução das obras, para ser aplicada em larga escala, na contemporaneidade o desejo não é mais de seriação e massificação, mas de diferenciação e exclusividade. Produzir objetos únicos e marcantes que “pousam” nas cidades potencializando a renda e o capital simbólico. As cidades do mundo contemporâneo, dos negócios e da forte economia dirigida pelo capital financeiro, buscam mostrar ao resto mundo seu crescimento. Aqui foi introduzido um novo conceito: a de cidade-mercadoria (city marketing). (VAINER, 2000). Procura-se investir em regiões pontuais da cidade – implantando infraestrutura, segurança, sistemas de telecomunicação avançados, aeroportos, hotéis, restaurantes – tendo em vista um suporte para o turismo e a consequente competitividade entre os investidores para a Arquitetura Monumental. A globalização da economia levou a adoção de novas estratégias mercadológicas, submetendo a cidade a condições similares às das empresas. Assim, para a city marketing emergir foi preciso a associação entre agentes multilaterais (os empresários da gestão urbana) e governos locais. (SÁNCHEZ, 1997)
Houveram experiências bem sucedidas – “modelos de sucesso”– que serviram de inspiração para outras cidades trilharem o mesmo caminho. O exemplo mais famoso é o de Barcelona. Para os Jogos Olímpicos de 1992 foram aplicadas várias medidas com vista à renovação urbana e à “repaginação da cidade” para o estrangeiro. Um dos objetivos de Barcelona era tornar-se atrativa. Para isso, foram realizadas uma série de intervenções, tanto no campo material como no campo simbólico, a fim de fortificar a imagem da cidade. Daí decorreu um “efeito dominó”, e outras cidades adotaram as mesmas soluções para atraírem turistas. Investiram na revitalização de antigos centros históricos, na implantação de equipamentos culturais de grande porte e valorizaram os espaços de interesse. (SÁNCHEZ, 2001)
Outra cidade que ganhou muita visibilidade com um famoso Plano Estratégico, foi Bilbao. A arquitetura teve um papel importante em Bilbao por despertar a curiosidade das pessoas, tornou-se, ela própria, o elemento de visitação, o turismo arquitetônico. Os projetos agregaram um alto valor simbólico (ou status) ao local. Vários arquitetos contemporâneos assinaram intervenções estratégicas na cidade: Santiago Calatrava, autor do aeroporto de Bilbao (Sondica Airport) e da ponte de pedestres Zubizuri, que atravessa o rio Nérvion, localizada nas proximidades do famoso museu; e Norman Foster que projetou o metrô, em estrutura metálica. Mas o principal componente do planejamento estratégico de Bilbao foi o Guggenheim de Frank Gehry. O Museu Guggenheim o qual, gostem ou não de sua arquitetura, surpreende a todos – inclusive ao próprio arquiteto, que afirmou ter ficado constrangido ao ver, pela primeira vez, seu edifício construído, perguntando-se então: “Como me deixaram fazer isso?” Pedro Arantes (2008).


Museo Guggenheim em Bilbao – 1997
Era preciso que a construção do museu tivesse, desde o berço, uma notoriedade na mídia, fosse importante, assim também se tornou importante associar o projeto do Guggenheim a um nome famoso no cenário da arquitetura internacional; e o mais famoso era, de fato, Frank Gehry, o “arquiteto ícone da pós-modernidade financeira” (ARANTES, 2008, p. 183). O Guggenheim impacta, pois se trata de um complexo sistema construtivo de alta tecnologia, revestido por uma superfície de titânio, aliada a uma série de outros volumes mais comportados. Gehry tenta unir duas arquiteturas em uma só: os volumes prismáticos, que primam pela funcionalidade, e a obra de arte da “flor metálica”, a qual objetiva, primordialmente, a provocação ou o espetáculo. Para Pedro Arantes (2008), a arquitetura de marca, como ele denomina, está relacionada com o capital financeiro e propostas arquitetônicas de soluções únicas O autor diz:
“Os arquitetos da era financeira, ao contrário dos modernos, não procuram soluções universalistas, para serem reproduzidas em grandes escalas. O objetivo é a produção da exclusividade, da obra única, […]. A arquitetura de marca tem, assim, um limite comercial que a obriga a adotar soluções inusitadas e sempre mais chamativas: se diversas cidades almejarem uma obra de Frank Gehry, por exemplo, perderão progressivamente a capacidade de capturar riquezas por meio de projetos desse tipo.” (ARANTES, 2008, p. 179)
Na última década do século XX, com a disponibilidade de recursos existente no mundo desenvolvido, a utilização de novas tecnologias e dos sofisticados sistemas gráficos computadorizados, a necessidade da imagem corporativa das grandes empresas multinacionais, o acelerado processo de industrialização dos países asiáticos, a renovação urbana nos países europeus, estabeleceram a forte visibilidade da arquitetura “do autor” e surge a presença globalizada de um pequeno grupo de arquitetos, chamado star system. Um grupo de oito a dez arquitetos que vão deixando suas marcas, cada qual com uma linguagem, visando o espetáculo.
Outro projeto icônico que surgiu um pouco mais tarde, mas neste mesmo contexto foi à Casa da Música de Rem Koolhaas, no Porto. Tratado como um monólito de geometria irregular ele foi concebido com intenção semelhante, a de ajudar na projeção internacional da cidade de Porto. No projeto original não havia uma decisão pelo material que se utilizaria para a superfície do prisma. A princípio poderiam ser placas metálicas ou algo leve suportado por uma estrutura metálica, mas Koolhaas resolveu fazer uma concessão à tecnologia local mais desenvolvida, o concreto armado. A maneira como o arquiteto trabalhou o concreto parecia querer contrariar a lei do material e até da própria gravidade, mas a procura de uma forma inusitada e de efeito provocativo acabou por se sobressair, pois o resultado final gerou um fato arquitetônico de destaque na concorrência midiática.


Casa da Música – 2005
Porém este tipo de obra monolítica em concreto expressa uma materialidade física que vai na contramão da era da arquitetura de marca. A tendência dominante na arquitetura do star system é em direção à leveza e transparências. (ARANTES, 2010, p. 72) Esta é uma característica da arquitetura contemporânea de marca: a valorização das superfícies, “embalagens” ou “peles”: “a prevalência das superfícies em relação às estruturas é o que permite a mágica de sua desmaterialização e transformação em imagem midiática.” (ARANTES, 2008, p. 193). Essas superfícies podem ser constituídas de materiais diversos como vidros, chapas metálicas (variadas), placas poliméricas, etc.
Pensando nas atuais cidades contemporâneas, que buscam fortalecer sua imagem com o modelo de planejamento estratégico, a arquitetura espetacular/de marca, funciona como instrumento midiático. Percebemos também, nitidamente, que o arquiteto do star system engrandece sua própria imagem através desta Arquitetura Monumental. Isto acaba sendo uma consequência do que acontece no atual contexto capitalista, onde este tipo de Arquitetura tem espaço.
Tendo em vista o estado das coisas, podemos refletir sobre quais serão as cenas dos próximos capítulos. Torna-se insustentável seguir com o obsoleto programa de construir cidades somente a engrandecer o poder do capital, instigando o espetáculo e a condução das massas a consumir. Não que elas não sejam bem-vindas, mas um pouco de equilíbrio sempre vai bem. Urge projetar para a real necessidade das pessoas e com uma agenda política mais próxima da sustentabilidade tentando pôr em pratica alguns paradigmas que assegurem uma arquitetura mais humana e local, apartando, mesmo que por um momento, a ilusão de querer que cada edifício seja um ícone representativo do mais tecnológico e esteticamente apurado. Apostar enfim, em uma Arquitetura que caminhe com a democracia, logrando construir um espaço urbano mais próximo ao cotidiano e ao bem-estar universal das pessoas.
Simone Patrícia Becker
Arquitetura e Urbanismo